Como já havia dito em artigo aqui em junho (Waterloo: 210 anos da derrota de Napoleão), o ano de 2025 marca duas efemérides importantes para a França, a Europa e a História: os 220 anos da Batalha de Austerlitz e os 210 anos da Batalha de Waterloo. São as mais famosas do período conhecido como as Guerras Napoleônicas: na primeira, há seis anos no poder (desde 13 de dezembro de 1799, como Primeiro-Cônsul) e já como Imperador, Napoleão obtém uma grande e arrasadora vitória que consolidaria seu poder na França e Europa; na segunda, Napoleão é definitivamente derrotado pelas potências estrangeiras. Como em junho escrevemos sobre Waterloo, nesse artigo terminaremos pelo início, ou seja, Austerlitz, ocorrida em 2 de dezembro de 1805, numa segunda-feira de um rigoroso inverno de frio congelante e fatalmente gélido, como se veria.
Como muito propriamente escreveu o francês Saint-Exupéry no livro Piloto de Guerra, a guerra é uma doença. Logo, aqui, não abordarei a batalha como algo glorioso, mas sim como um grande feito militar que está sob a regência do signo da morte e da bestialidade humana. Posto isso, o fato é que em Austerlitz o gênio militar de Napoleão Bonaparte se fez valer através de uma vitória retumbante contra uma força combinada de austríacos e russos.
Entre às 7 horas e as 16 horas do dia 2 de dezembro de 1805, exatamente no aniversário de um ano da autocoroação de Napoleão como Imperador da França, o Grande Exército francês imporia aos impérios da Austria e Rússia aquela que é considerada a maior vitória de Napoleão dentre todas as batalhas travadas durante as Guerras Napoleônicas. Foi um nó tático daqueles, como dizemos no futebol. Tudo o que Napoleão pensou deu certo, pois tanto anteviu quanto instigou todos os movimentos dos exércitos inimigos, levando-as a uma armadilha mortal.
Voltando um pouco no tempo, França e Inglaterra estavam em guerra desde 18 de maio de 1803, e uma armada combinada entre os aliados França e Espanha foi dizimada pela Marinha Inglesa na Batalha de Trafalgar pouco mais de um mês antes, em 21 de outubro de 1805, frustrando qualquer tentativa de Bonaparte de invadir a Inglaterra. Nesse mesmo contexto é que se dá a Batalha de Austerlitz, pois Napoleão se deslocara em agosto do Canal da Mancha para parte do território austríaco (hoje pertencente a República Tcheca) visando impedir esses e os russos, aliados dos ingleses, de invadirem a França por terra, antevendo corretamente seus movimentos. Pelo caminho, no dia 20 de outubro (véspera de Trafalgar), os franceses cercam e derrotam uma parte da vanguarda o exército da Áustria, fazendo dezenas de milhares de prisioneiros e, em novembro, tomam Viena, capital do país. E aqui chegamos a Austerlitz.
Ela também é conhecida como a Batalha dos Três Imperadores, e tal denominação diz muito sobre o conflito. Comandando seus exércitos no campo de batalha, além de Napoleão, estão os imperadores da Áustria, Francisco I, e da Rússia, Alexandre I. O fato é que, além das questões econômicas e territoriais de sempre, havia um componente político: Napoleão, para os outros, era um imperador fake, eis que não possuía sangue nobre e era fruto da Revolução Francesa, cujos ideais republicanos, que Bonaparte representava e aplicava, assombravam as monarquias europeias de então, temerosas de que o modelo se espalhasse pelo continente e cortasse as cabeças de reis e nobres, como aconteceu na França pelas guilhotinas. Também é bom não esquecer que, através de casamentos entre realezas transnacionais, muitos desses aristocratas eram parentes. Em suma, realmente havia sólidos motivos para temor e mágoa por parte desses. E, assim, se formou essa aliança conhecida como a Terceira Coligação contra a França desde o início da revolução, em 1789.
Então, em Austerlitz, naquela fria manhã de segunda-feira, Napoleão simula estar em retirada com seu exército e os aliados mordem a isca, atacando às 7 horas o fraco flanco direito do que presumiam ser parte do Grande Exército, a fim de manobrarem pela retaguarda francesa, como vocês podem ver na parte inferior do mapa abaixo, sendo as tropas franceses assinaladas em azul e as austro-russas em vermelho. Esse ataque inicial é o mesmo sinteticamente retratado no recente (e ótimo) filme de Ridley Scott, onde Napoleão é interpretado por Joaquin Phoenix (1 - vídeo abaixo). Só que ali dá a impressão de que a batalha foi só aquilo e que foi rápida a coisa, enquanto na realidade Napoleão estava noutro ponto de observação e o quebra pau ali se deu o dia inteiro, até os aliados fugirem e os franceses, de fato, bombardearem o lago a fim de afogá-los (2 - ao final, deixo uma animação em computador que, em quase 30 minutos, dá um esquema bem preciso do que foi a batalha). O grande e experiente general russo Kutuzov, no dia anterior, desconfiou que algo estava muito errado e alertou o czar Alexandre I, mas o jovem imperador estava ávido por uma vitória militar e o ignorou por completo no dia 2. Anos mais tarde, o escutaria e salvaria a Rússia (Há exatos 213 anos, Napoleão invadia a Rússia).
Bom, continuando a síntese do que foi a Batalha de Austerlitz, quando os aliados se jogaram com tudo contra o flanco direito dos franceses, deram de cara com uma resistência inesperada, pois o astuto Napoleão se aproveitara dos bosques e da neblina para esconder a maior parte do Grande Exército dos olhos inimigos. Isso é resumo, tá gente, se vocês estudarem só esse ataque acharão muitas manobras táticas e enfrentamentos de infantaria e cavalaria em cidades, eis que os combatentes se estendiam, no total da batalha, por uma linha de 11 quilômetros, sendo 73 mil franceses contra 85 mil austro-russos, a grande maioria deles russa. O fato é que os aliados enfraqueceram seu centro, que estava na colina Pratzen (observem no mapa abaixo), a fim de realizar essa manobra ofensiva tática, e isso era exatamente o que Napoleão planejara. O grosso do Grande Exército surgiu do bosque e da neblina e subiu a colina, surpreendendo austríacos e russos. Após muitas idas e vindas numa luta feroz e encaniçada, os franceses finalmente rompem o centro aliado e, após isso, no meio da tarde, manobram e atacam a retaguarda dos inimigos que tentavam romper seu flanco direito. Cercados, estes fogem pelo sul, o caminho que lhes restou, pelos lagos congelados...
Uma derrota tremenda, que os números demonstram cabalmente: os franceses tiveram 1.305 mortos, 6.940 feridos e 573 capturados; austro-russos tiveram 15.000 mortos ou feridos, 12 mil feitos prisioneiros e 180 canhões capturados. Depois disso, por dez anos, Napoleão ainda reinaria, até ser finalmente derrotado em 1815 em Waterloo pelos ingleses e prussianos, enfrentando a Sétima Coligação contra a França. O regime republicano, 220 anos depois, perseverou na maior parte dos países, enquanto as monarquias foram pro beleléu, restando apenas algumas de brinquedo, só pra inglês ver. Se Napoleão tivesse sido derrotado em Austerlitz, as monarquias teriam tido destino diferente? O modelo republicano teria se firmado na Europa? Teria ocorrido a Revolução de 1848 na França? A Comuna de Paris (1871)? A Revolução Russa (1917)? Quem sabe, né?
O que as Guerras Napoleônicas nos demonstram, hoje? Que as guerras iniciam e terminam os ciclos geopolíticos, estabelecendo novas ordens mundiais. Estamos entrando num final de ciclo pós segunda Guerra Mundial, com a Guerra da Ucrânia? Dizem que sim, que o mundo se abre definitiva e inexoravelmente para o multilateralismo. Quem viver, verá.
Imagem acima: pintura em óleo sobre tela do francês François Gérard (1770 - 1837)
VÍDEO YOUTUBE 1: Napoleon Forms His Forces In The Battle of Austerlitz | Napoleon, de Ridley Scott
VÍDEO YOUTUBE 2: The Battle of Austerlitz: Napoleon's Masterclass