João Adolfo Guerreiro
Descobrindo a verdade/ sem medo de viver/ A liberdade de escolha/ é a fé que faz crescer.
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Textos

Las três amigas dos livros

 

Los três amigos eram quatro: os cartunistas Laerte, Glauco, Angeli e Iturrusgaray. Os três mosqueteiros também eram quatro: Atos, Portos, Aramis e Dartagnan. Las três amigas, da mesma forma, eram quatro: Maria, Amanda, Carina e João - sim, uma das quatro era um homem. Assim, ainda mais heterodoxo que os outros trios de quatro era o Las três amigas dos livros.

 

Estavam reunidas as quatro no Chalé da Praça XV de Porto Alegre justamente para o lançamento de um livro, de poesias, conversando sobre a arte, a vida, a arte da vida e a literaratura enquanto bebiam café e petiscavam. Era o dia 19 de setembro de 2026, às portas da entrada da primavera daquele ano, há longínquos quarenta anos, vistos pela memória humana de duas senhoras, uma septuagenária e outra octogenária. Lembranças sobre Maria e João...

 

Por acaso o 19 de setembro de 2066 também é num sábado e Amanda e Carina estão novamente no Chalé da Praça XV, para a sessão de autógrafos de um livro de contos chamado Conteiros XLII, do qual participam. Na capa, a onipresente pinha, a pinha da Beth. O trio que era quarteto virou dupla, mas ainda sim era o Las três amigas dos livros. Pra sempre seria.

 

- Te lembrou, Carina?

- Lembrei, Amanda. Minha memória é boa, pois o coração grato é ainda forte.

- Já seriam centenários...

- A Maria, sim. O João, quase...

- É.

- Nossa Rainha.

- Nosso cronista.

 

Nem precisavam citar o exato dia passado quatro décadas atrás, ambas recordavam mui bem daquela vez e a coincidência entre data, local e evento jamais lhes passaria despercebida. Ainda mais por se tratar de outro livro de capa azul.

- Azul como o céu.

- Sim, como o céu.

Olharam para o início do cair da tarde, como se os amigos estivessem lá no alto, sorrindo e acenando. Literariamente estavam, mesmo. E de fato. Quem sabe? "Quem vive, sabe8", escreveu Clarice Lispector em A hora da estrela. 

 

- Chovia naquele dia.

- Sim, chovia.

- Bebíamos café, como agora.

- E o petisco? Caro e pequeno.

- É. Tivemos de aditivar com umas fritas. Essas sim, vieram numa porção decente.

- O João com dor nas costas e a Maria com o pé quebrado.

- E nós duas sem namorado.

- É.

- Tu num dia Creusa.

- E tu pé-de-chumbo.

- Tu viu ali na fila?

- A filha e as netas do João? Sim.

- E as bisnetas, que ele teria adorado ver assim, moças.

- É.

 

Silêncio.

 

Pra sempre será Las três amigas dos livros, mesmo que, como na canção, imprecisa, o pra sempre sempre acabe. O que foi jamais deixará de ser, por ter sido uma vez. Quem compreende isso sabe da vida e da eternidade, pois a existência terrena é breve e frágil, mas infinita. Não é por as desconhecermos que as coisas e os seres não tenham existido e resistam para além do tempo humano...

João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 25/09/2026
Alterado em 26/09/2026
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