João Adolfo Guerreiro
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Torto Arado: leitura e debate

 

Há vinte dias falei aqui sobre o livro Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, que foi lido e debatido ontem na Biblioteca Municipal Vera Gauss pelo Clube do Livro de Charqueadas. Disse então que achava o titulo e a capa estranhos e, não fosse pelo Clube, não teria curiosidade de ler. Pois então: abençoado Clube!

 

Uau syl, o livro é hipermegasuperultra fodástico, um primor em 260 páginas que justifica plenamente todo o barulho em torno de si, a grande vendagem e as loas de crítica e de público, passa longe de ser um Tudo é Rio. A capa é inspirada na foto acima, mas essas daí não são as personagens Bibiana e Belonísia, as irmãs de Torto Arada. O livro é dividido em três partes, cada uma com um narrador diferente para a história: Fio de corte, por Bibiana; Torto arado,  por Belonísia; e Rio de sangue, pela entidade Santa Rita Pescadeira. Faz um recorte da exploração dos ex-escravos da Abolição para os dias recentes numa história com múltiplas camadas: religiosa, política, ideológica, trabalhista, que vão de temas desde a exploração aviltante do trabalho até a violência contra mulher. E Itamar faz tudo isso sem ser chato, mas sim através de uma escrita fluída que te pega.

 

Ah, uma observação pertinente: o escritor e desenhista Cristiano Quintana, em sua avaliação durante o debate, deu 9.5 para o livro, porque o início é meio arrastado e pode afastar o leitor, ponto de vista análogo ao do professor Fernando Mendes. Concordo com eles, fato, mas pra quem segue adiante a recompensa é um diamante raro, nota 10. Como podemos perceber no testemunho da Elizebeth Kappel, do Bússola Literária: "Ler Torto Arado mexeu com todos os sentidos. Eu fui uma criança parecida com Belonísia e Bibiana, lembrei das minhas aventuras com meu irmão, nós com o facão do nisso pai cortando o mato pra brincar de 'Indiana Jones'. Lembrei de colocar uma vez um metal enferrujado na boca pra saber que gosto tinha, e também de tocar um dedo no sangue do joelho ralado e depois levar até a boca. Senti também o cheiro dos peixes, da chuva, da madeira molhada, do hálito de bebida. Ouvi os gritos, os insultos, pude imaginar o choro abafado das crianças e o silêncio da tristeza. Lembrei da minha vó e de como ela varria as folhas do pátio, cuidava das flores, da horta, ela fazia da casa um lar, como Belonísia. Eu e a cada página via a paisagem, as casas, e refletia sobre era quem era o dono dessas, e de outras terras."

 

E era isso. Recomendo a leitura de Torto Arado, obrigatória para os apreciadores da iterativa brasileira.

 

PS - Parabéns para a Marina Vencato, que soprou 29 velinhas ontem no Clude do Livro.

 

 

João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 20/08/2026
Alterado em 20/08/2026
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