João Adolfo Guerreiro
Descobrindo a verdade/ sem medo de viver/ A liberdade de escolha/ é a fé que faz crescer.
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Textos

Adenium Odesum

 

Hoje trago outra cronista para vocês, Luana Diello, atriz e escritora santiaguense radicada em Charqueadas. Abaixo o seu texto: 

 

Olhar no espelho e não reconhecer o próprio corpo dói. Dentre os desertos que visitei, esse foi o pior. Não importava o esforço: nada ali lembrava o que eu já fui, nem o cabelo, a pele ou meus seios. O deserto também já não era o mesmo. Eu já estava exausta de ter que criar intimidade com o oculto mais uma vez, saber os motivos que me levaram até ali e decidir se deixo no espelho a saudosa lembrança do que fui ou se renasço. Em qualquer decisão, o fim é inevitável.

 

Em minhas veias corre o que me mata para me curar, a começar pelos excessos de gentileza e pela fissura em ser a salvadora do mundo, para que, em algum momento, eu receba o amor que me foi negado desde que nasci. E isso não é drama ou vitimismo, é consciência. Seria mais fácil colocar a culpa nos meus pais ou em todas as vezes em que tive meu coração partido, mas as decepções fazem parte da vida. De uma coisa eu tenho certeza: ninguém vai te obrigar a ficar naquele emprego de ambiente hostil, dividir a cama com um inimigo, seguir uma rotina e comportamentos medievais. Nem sempre houve uma arma apontada para minha cabeça, mas, em todas as vezes, fui eu quem puxou o gatilho.

 

Não me olhe com teus olhos arregalados e quase secos, respira! Eu falo dessas coisas que assustam e confundem as pessoas porque, na verdade, se eu fosse direta ou te desse o poder de sentir o julgamento do espelho, a areia pesada, o sol na cabeça e nenhum fio de cabelo para contar a história, nesse deserto cheio de nadas, então saberias o que é desespero.

 

Mas você não é qualquer um; somos andarilhos. A diferença é que, enquanto tu afastas a todos com teus sonoros nãos, eu fui mãe de crias que não vi crescer, sonhos que nunca foram meus e dei de mamar a quem tivesse fome. Sei lá, achei que, por ser boazinha demais, minha fonte seria contínua; sequei.

 

Essa cicatriz aqui no peito não é sinal de culpa, descaso, maldição ou da famosa mutação genética; ela é a bússola que tem me guiado, não para a esquerda ou para a direita, mas para dentro.

 

Talvez eu chore mais umas semanas, não tome banho por uns dias, quebre o espelho ou faça castelinhos de areia. Talvez eu siga falando coisas estranhas, como histórias sobre por que prefiro canecas a xícaras, lenços a perucas ou organizar meu roupeiro por cores. Não há como saber; são diversas possibilidades aqui no ponto zero.

 

A novidade é que estou livre de tudo o que nunca foi meu, e o que ainda está enraizado uma hora vai murchar. Tenho tempo, e a estrada é longa; vou aprender como se rega, como se cuida e como florescer em terras onde até a vida se esconde.

João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 11/06/2026
Alterado em 11/06/2026
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