A Sangue Frio, de Truman Capote, no níver de três anos do Clube do Livro
É um baita livro! Opino e testemunho! O primeiro romance de não ficção do chamado New Journalism e, no mês de seu terceiro aniversário, o Clube do Livro de Charqueadas o debaterá na quarta-feira da próxima semana. Aliás, será o primeiro título de romance de não ficção a ser objeto do Clube.
Comecemos brevemente pelo geral. O New Journalism foi gestado na revista estadunidense New Yorker, sendo considerado seu texto precursor Hiroshima, de John Hersy, em agosto de 1946. O primeiro texto do Jornalismo Literário, contudo, foi de Capote: O duque em seus domínios, um perfil do ator Marlon Brando. Outros autores do New Journalism foram Tom Wolfe, Gay Talese e Norman Mailer.
Agora nos alonguemos no particular. A Sangue Frio é o primeiro romance de não ficção do New Journalism, que une o realismo jornalístico com a técnica da escrita literária do gênero romance. Capote, em novembro de 1959, leu uma nota no jornal The New York Times informando sobre o brutal assassinato de uma família de fazendeiros lá nos confins do Sul dos Estados Unidos, numa cidadezinha do Kansas de 270 habitantes, ou seja, o ermo da grota. Um mês depois lá estava ele na cidade, Helcomb, visando colher informações para uma longa matéria para a New Yorker. Para isso, contou com o auxílio da amiga de infância Harper Lee (1), outra grande escritora, que o ajudou nas conversas com a população - os dois estão na foto abaixo, com Capote autografando A Sangue Frio. Registre-se que nessa época Capote já era o famoso jornalista e autor do romance Bonequinha de Luxo (1958), que viraria filme em 1961 com cinco indicações ao Oscar, vencendo em duas.
Entretanto, o que seria uma longa matéria levou seis anos de investigação e escrita, tornando-se o pioneiro romance. Capote conversou com todos na cidade, além dos assassinos, dos seus parentes e dos das vítimas. Richard e Perry, os homicidas, foram enforcados em abril de 1965. Até setembro desse ano, a New Yorker publicou separadamente os quatro capítulos do texto, que foram lançados em livro em 17 de janeiro de 1966.
Já na capa o livro informava o que aconteceu, pois o que contava mesmo era a narrativa minuciosa que ia da infância dos assassinos e da formação da família, passando pela preparação e consumação do crime contra o senhor Clutter, sua esposa e o casal de filhos mais jovens, ainda adolescentes, chegando até o enforcamento de seus algozes, com tal riqueza de detalhes e diálogos como se tratasse de um romance ficcional, só que não. Coisa de gênio, um impacto e assombro para a época, que rendeu estrondosos dois milhões de dólares para o autor, ou seja, US$ 20.400.000 hoje. Uau syl!
O que impressionou e ainda impressiona no livro é o que lhe nomeia: a frieza dos homicidas que, a primeira vista, pelo relato que Capote faz da infância destes, parecem pessoas comuns. Ao ler pensei em Hannah Arendt no livro Eichmann em Jerusalém, onde escreve sobre a banalidade do mal, ou seja, das maiores barbaridades serem cometidas por pessoas comuns, como algo natural e irrefletido. Isso é o verdadeiro horror, o sangue que jorra pelas páginas de A Sangue Frio, onde encontramos em minúcias forenses tanto o estado como os corpos foram encontrados quanto a forma com foram executados, além do que Perry e Richard pensaram e conversaram antes, durante e depois.
A Sangue Frio é um livro que todo o apreciador de literatura deveria ler. Você quase não acredita que aquilo tudo é a pura realidade, sem invenção literária. Hipermegasuperultra recomendo. Apareçam no Clube do Livro na quarta-feira. Até lá.
Um bom final de semana para todos. Cuidem-se, vacinem-se, vivam e fiquem com Deus.
(1) - Para saber da interessante relação entre Lee e Capote, acessar: Capote & Lee Ltda, Monroeville
