Sou o roqueiro experiente da família, mas meu cunhado vinte anos mais novo é o roqueiro mais atualizado, que sabe onde ficam todas as bocas de Porto Alegre. E olha que eu morei na Capital quando jovem, em mil novecentos e começo do mundo, século passado, na Estrada do Forte, estudando no Pertenon, na Escola Tiradentes, pegando T4.
Entretanto, sou fã de Led Zeppelin e suponho possuir o mérito de ter passado o gosto pra ele, que tem até tatuagem dos caras. Ele que me levava na loja do Led, na Galeria Chaves, era freguês do cara. E um certo dia, uns dez anos atrás ou mais, me levou, se não me engano, na Marechal Floriano, onde ficava uma loja chamada Beco ou Boca do Disco, coisa assim. E aqui começa às ganhas esta crônica...
Subimos a lomba vindos do Mercado Público e, lá pelo meio da quadra, entramos numa loja à esquerda, já quase ao final da manhã. A porta estava aberta, possuía um sininho, mas não encontramos de início ninguém lá dentro, só os discos e CD's, espalhados pra todo o lado. Chamamos e, assim, apareceu o atendente, ou melhor, quem eu supus ser o atendente, saindo vagarosamente detrás do balcão, pelo lado.
Rockers, nunca tinha visto um gato tão grande como aquele, juro. O bichano era eeeeenooormeeee. E com o pelo do corpo todo raspado, exceto pela cabeça e pela ponta do rabo, parecia mais um mini leão. Mas o que mais me impactou foi o jeito do gato: sem nunca desviar o olhar calmo e blasé da gente, sentou e permaneceu nos encarando, ora um, ora outro. Surreal. Eu e meu cunhado trocamos um olhar, incrédulos. Por mais absurdo que possa parecer agora, se naquele momento o gato tivesse falado comigo, teria respondido. "Será que esta é uma loja tipo o bar de Um Drink no Infermo e este gato comerá a gente?" - pensei.
Aquilo durou uma fração de tempo que ignoro, até sermos tirados daquele estado de surrealidade pelo tocar do sininho da porta atrás de nós.
- Como vocês entraram aqui?
Virei-me e um cara magro e branco, veterano, com cabelo e barba longos e negros, nos olhava desconfiado, com cara de poucos amigos. Achei que era o Ermitão do Led IV, sem o hábito de capuz. Não consegui dizer nada, abobalhado com o gato, que continuava impassível, observando-nos. Meu cunhado reagiu:
- Pela porta. Estava aberta.
O cara pareceu pensar por alguns momentos, depois falou.
- Fui buscar comida, esqueci de fechar aporta.
Realmente, estava com um embrulho nas mãos. Passou pela gente, dirigindo-se para trás do balcão, de onde nos perguntou rispidamente:
- Estão aqui há muito tempo?
- Algus minutos - respondi, impreciso, enquanto encarava o gato, que permanecia nos fitando. O Ermitão percebeu.
- Esse é o Lu, o meu gato.
Não sei se fiquei aliviado com essa informação. Lu? Seria o diminutivo de Lúcifer, seu verdadeiro nome? Claro que não perguntei isso pro Ermitão.
- O que vocês querem? - perguntou, seco, demonstrando má vontade em nos atender.
- Tô procurando o Elephant, do White Stripes - respondi.
Puxou uns Cd's debaixo do balcão e largou o meu pedido.
- Isso é a única coisa que vende deles, mesmo. E tu, o que quer?
- O primeiro do Iron Maiden - disse meu cunhado.
- De qual? O do Iron Maiden de verdade ou o do de brinquedo?
Olhamo-nos, enquanto o cara nos encarava como se fôssemos dois manés. Começou a largar CD's do Iron Maiden em cima do balcão de qualquer jeito, dizendo:
- Desse Iron Maiden, o de brinquedo, eu tenho tudo. É esse que tu quer? Ou é o Iron Maiden de verdade?
Óbvio que ele estava ou nos tirando pra loques ou se deliciando com nossa ignorância. E o Lúcifer lá, na mesma posição, nos observando. Entrei numas de que ria da gente, à Monalisa.
- Então, mas se tu quer o Iron Maiden de verdade, eu também tenho.
Pegou um disco e nos mostrou. Era uma outra banda chamada Iron Maiden.
- Este é o Iron Maiden de verdade, dos anos 1960, não esse daí, o de brinquedo.
Colocou pra rodar num prato e ia falando da banda enquanto a gente ouvia. Achei parecido com um som conhecido. Colocou também uma chamada Gun (de verdade, não o Guns'N Roses). Depois de um tempo, falei:
- O som lembra o do Mountain, do Woodstock.
Disse de propósito, pois Mountain não está nem no disco e nem no filme do festival, só quem conhece a coisa mais a fundo sabe do Mountain.
O Ermitão me encarou em silêncio e o Lúcifer pareceu tirar a Monalisa do rosto, como se, pela primeira vez, lhe interessasse o assunto dos humanos. Depois, conversamos mais um pouco, ele ficando mais respeitoso. Eu levei o meu Elephant e o meu cunhado o Iron Maiden de brinquedo. O Lúcifer permaneceu nos encarando, no mesmo lugar, até sairmos.
Já na rua, falei:
- Pensei que aquele gato ia falar com a gente ou nos comer.
- Eu também. Tu viu o nome dele? Lu. Será que era de Lúcifer?
- Bah, pensei a mesma coisa.
Mas valeu a interação com o Ermitão e o Lu, a partir daquele dia jamais esqueci o Iron Maiden de verdade, mesmo continuando a preferir o de brinquedo.