João Adolfo Guerreiro
Descobrindo a verdade/ sem medo de viver/ A liberdade de escolha/ é a fé que faz crescer.
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Textos

Lu, o Ermitão e o Iron Maiden de verdade 

 

Sou o roqueiro experiente da família, mas meu cunhado vinte anos mais novo é o roqueiro mais atualizado, que sabe onde ficam todas as bocas de Porto Alegre. E olha que eu morei na Capital quando jovem, em mil novecentos e começo do mundo, século passado, na Estrada do Forte, estudando no Pertenon, na Escola Tiradentes, pegando T4.

 

Entretanto, sou fã de Led Zeppelin e suponho possuir o mérito de ter passado o gosto pra ele, que tem até tatuagem dos caras. Ele que me levava na loja do Led, na Galeria Chaves, era freguês do cara. E um certo dia, uns dez anos atrás ou mais, me levou, se não me engano, na Marechal Floriano, onde ficava uma loja chamada Beco ou Boca do Disco, coisa assim. E aqui começa às ganhas esta crônica...

 

Subimos a lomba vindos do Mercado Público e, lá pelo meio da quadra, entramos numa loja à esquerda, já quase ao final da manhã. A porta estava aberta, possuía um sininho, mas não encontramos de início ninguém lá dentro, só os discos e CD's, espalhados pra todo o lado. Chamamos e, assim, apareceu o atendente, ou melhor, quem eu supus ser o atendente, saindo vagarosamente detrás do balcão, pelo lado.

 

Rockers, nunca tinha visto um gato tão grande como aquele, juro. O bichano era eeeeenooormeeee. E com o pelo do corpo todo raspado, exceto pela cabeça e pela ponta do rabo, parecia mais um mini leão. Mas o que mais me impactou foi o jeito do gato: sem nunca desviar o olhar calmo e blasé da gente, sentou e permaneceu nos encarando, ora um, ora outro. Surreal. Eu e meu cunhado trocamos um olhar, incrédulos. Por mais absurdo que possa parecer agora, se naquele momento o gato tivesse falado comigo, teria respondido. "Será que esta é uma loja tipo o bar de Um Drink no Infermo e este gato comerá a gente?" - pensei.

 

Aquilo durou uma fração de tempo que ignoro, até sermos tirados daquele estado de surrealidade pelo tocar do sininho da porta atrás de nós.

- Como vocês entraram aqui?

Virei-me e um cara magro e branco, veterano, com cabelo e barba longos e negros, nos olhava desconfiado, com cara de poucos amigos. Achei que era o Ermitão do Led IV, sem o hábito de capuz. Não consegui dizer nada, abobalhado com o gato, que continuava impassível, observando-nos. Meu cunhado reagiu:

- Pela porta. Estava aberta.

O cara pareceu pensar por alguns momentos, depois falou.

- Fui buscar comida, esqueci de fechar aporta.

Realmente, estava com um embrulho nas mãos. Passou pela gente, dirigindo-se para trás do balcão, de onde nos perguntou rispidamente:

- Estão aqui há muito tempo?

- Algus minutos - respondi, impreciso, enquanto encarava o gato, que permanecia nos fitando. O Ermitão percebeu.

 

- Esse é o Lu, o meu gato.

Não sei se fiquei aliviado com essa informação. Lu? Seria o diminutivo de Lúcifer, seu verdadeiro nome? Claro que não perguntei isso pro Ermitão.

 

- O que vocês querem? - perguntou, seco, demonstrando má vontade em nos atender.

- Tô procurando o Elephant, do White Stripes - respondi.

Puxou uns Cd's debaixo do balcão e largou o meu pedido.

- Isso é a única coisa que vende deles, mesmo. E tu, o que quer?

- O primeiro do Iron Maiden - disse meu cunhado.

- De qual? O do Iron Maiden de verdade ou o do de brinquedo?

Olhamo-nos, enquanto o cara nos encarava como se fôssemos dois manés. Começou a largar CD's do Iron Maiden em cima do balcão de qualquer jeito, dizendo:

- Desse Iron Maiden, o de brinquedo, eu tenho tudo. É esse que tu quer? Ou é o Iron Maiden de verdade?

 

Óbvio que ele estava ou nos tirando pra loques ou se deliciando com nossa ignorância. E o Lúcifer lá, na mesma posição, nos observando. Entrei numas de que ria da gente, à Monalisa.

- Então, mas se tu quer o Iron Maiden de verdade, eu também tenho.

Pegou um disco e nos mostrou. Era uma outra banda chamada Iron Maiden.

- Este é o Iron Maiden de verdade, dos anos 1960, não esse daí, o de brinquedo.

Colocou pra rodar num prato e ia falando da banda enquanto a gente ouvia. Achei parecido com um som conhecido. Colocou também uma chamada Gun (de verdade, não o Guns'N Roses). Depois de um tempo, falei:

- O som lembra o do Mountain, do Woodstock.

Disse de propósito, pois Mountain não está nem no disco e nem no filme do festival, só quem conhece a coisa mais a fundo sabe do Mountain.

 

O Ermitão me encarou em silêncio e o Lúcifer pareceu tirar a Monalisa do rosto, como se, pela primeira vez, lhe interessasse o assunto dos humanos. Depois, conversamos mais um pouco, ele ficando mais respeitoso. Eu levei o meu Elephant e o meu cunhado o Iron Maiden de brinquedo. O Lúcifer permaneceu nos encarando, no mesmo lugar, até sairmos.

 

Já na rua, falei:

- Pensei que aquele gato ia falar com a gente ou nos comer.

- Eu também. Tu viu o nome dele? Lu. Será que era de Lúcifer?

- Bah, pensei a mesma coisa.

 

Mas valeu a interação com o Ermitão e o Lu, a partir daquele dia jamais esqueci o Iron Maiden de verdade, mesmo continuando a preferir o de brinquedo.

 

João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 06/02/2026
Alterado em 16/02/2026
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