João Adolfo Guerreiro
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Textos

Maria

 

O órfão retirava as luzes e os enfeites de Natal de sua casa, sozinho, no Dia de Reis. Os colocara, todos, no primeiro domingo do Advento. Não pensava em nada, apenas realizava a tarefa devida no dia devido.

 

Já era final de tarde quando a retirada foi finda. Um desânimo tomou conta de seu espírito, um desconforto vago. Passou um café e o bebeu numa xícara "paisana", eis que já lavara e guardara as com motivos natalinos. Estava sentado no pátio, sob a árvore onde até bem pouco estavam as luzes coloridas, o Noel subindo a escada, o festão encarnado e as bolinhas de Natal. Ah, e também o presépio colorido.

 

As pessoas do presépio eram a sua companhia há mais de um mês. Todos ali: Maria, José, os pastores e, desde o primeiro momento, o Menino, que deveria ser colocado só no dia 24, e os Reis Magos que, pelo certo, só entrariam hoje. Entretanto, nenhum deles reclamou, todos ficaram de boa ali, cumprindo seu papel na representação inventada por Francisco de Assis.

 

Órfão, solteiro e filho único. Para o próximo Natal pretendia já ter uma mulher e, quem sabe, um filho. Já tinha alguém em mente: Maria, colega de trabalho. Uma Maria para ele, José. Não colocaria o nome do filho, se menino, de Jesus. João, quem sabe. Se menina pensava em Ester.

 

Acabou o café e a árvore estava escura. Os pais se foram. Irremediavelmente. Maria, isso, Maria. E o filho que que depois dele se lembraria, como ele aos pais.

 

Sorriu, em paz. Foi deitar. Pelos vidros das janelas do quarto não mais eram refletidas as luzes coloridas. Dia de Reis.

 

Tchau, Natal.

João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 08/01/2026
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