João Adolfo Guerreiro
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O 20 de Setembro e a Região Carbonífera

 

Nenhum homem deve morrer sem ter tido sua biblioteca, lugar onde, em vida, leu sobre a história de seu povo, de sua gente. Amanhã será 20 de Setembro, data magna do Rio Grande do Sul, efeméride repleta de controvérsias, falsificações, bravura e ideais. A história não é utopia, mas sim o que foi dia após dia, realidade. Não é narrativa ideal, é o relato da incoerência humana frente a brutalidade do mundo social e histórico.

 

Amanhã será o 20 de Setembro, que marca a invasão da "mui leal e 'valerosa' (ao Império)" Porto Alegre pelos Farroupilhas, três dias antes do aniversário de 47 anos de seu líder maior, Bento Gonçalves da Silva, nascido em Triunfo. O que era Triunfo nessa época? Um dos quatorze municípios do Rio Grande do Sul, fazendo divisa com Porto Alegre, Santo Antônio da Patrulha, São José do Norte, Cruz Alta, Rio Pardo e Pelotas. Mas bah, tchê, grande uma barbaridade! Guaíba pertencia à Triunfo!

 

20 de Setembro, feriado no Rio Grande do Sul onde Neto perdeu sua alma, segundo Tabajara Ruas. O Neto da Batalha do Seival, o proclamador da República Rio-Grandense em 11 de setembro de 1836, pouco menos de um mês antes de Bento Gonçalves ser preso pelos imperiais na Batalha da Ilha do Fanfa, em 4 de outubro, ilha que até hoje pertence à Triunfo, localizando-se adiante de Charqueadas na direção de Porto Alegre, após as ilhas da Paciência e dos Dorneles. Neto, o republicano derrotado pelo Império, o abolicionista no tempo do Massacre de Porongos, a traição sobre os Lanceiros Negros.

 

Os meninos charqueadenses Miguel e Artur brincam no Monumento Túmulo a Bento Gonçalves em Rio Grande (a família do primeiro é de lá), na foto acima, que ilustra este artigo. O que sabem eles sobre Bento e outros farroupilhas e a relação desses com a Região Carbonífera? Creio que, pela idade, praticamente nada. Isso lhes será contado, mais adiante. Um povo precisa de bibliotecas a fim de conhecer sua história, a de seu povo e de sua gente, geração após geração: identidade. Controversa e polêmica, mas, insofismavelmente, identidade.

 

Bento nasceu em Triunfo e foi preso na Batalha do Fanfa, vimos acima. Já o primeiro presidente da República Rio-Grandense, José Gomes Jardim nasceu em Santo Amaro, em 1º de janeiro de 1773. Na época Santo Amaro era de Triunfo, depois virou município e, 100 anos após a Batalha do Fanfa, virou distrito de General Câmara, durante o governo de Getúlio Vargas. A casa de Gomes Jardim ainda existe em Santo Amaro, em ruínas, uma lástima e um desleixo com prédio histórico tão importante para o 20 de Setembro. Bento Goncalves morreu em 1847 na casa de Gomes Jardim em Guaíba (que então se chamava pedras Brancas), ou seja, Triunfo, à época. Nesta mesma casa, a "Estância de Pedras Brancas", à sombra de um cipreste - o "Cipreste Farroupilha" - a tomada de Porto Alegre em 20 de setembro de 1935 foi planejada. Logo, tudo isso se deu na antiga Triunfo. A casa e o cipreste ainda existem na atual Guaíba, junto a Praça Gomes Jardim, onde há um busto seu e este está enterrado.

 

Santo Amaro hoje é General Câmara. O general que nomeia a cidade foi José Antônio Correia da Câmara, que sentou praça aos 15 anos na cavalaria imperial, em 15 de setembro de 1839 - guardem essa data - a fim de combater os farrapos. O Solar dos Câmara, em Porto Alegre, foi de sua família, pois ele se casou com a filha do dono original do prédio, cuja esposa era meia-irmã de Câmara. Sim, isso mesmo, o general Câmara desposou sua sobrinha. Normal, para a época, hoje seria um escândalo. Na Guerra do Paraguai, já general, comandou a tropa que cercou e liquidou Solano Lopez em Cerro Corá. Chegou a marechal (só oficiais generais em período de guerra obtém essa patente) e foi ministro da Guerra e senador. Durante a Revolução Farroupilha, ficou acampado por muito tempo onde hoje é a General Câmara que nomeia.

 

Guardaram a data que pedi, acima? Pois então, três dias após Câmara sentar praça, José Manuel Leão era morto por tropas imperiais em sua charqueada em Triunfo, mais precisamente na atual Charqueadas, próximo a confluência do rio Jacuí com o Arroio dos Ratos. Logo, ontem fez 186 anos de sua morte. Ou assassinato. Dizem seus descendentes, como o genealogista Diego Leão Pufal, que José e seu irmão Chico foram friamente executados pelo famoso Francisco Pedro "Moringue" de Abreu nesse dia, quando as tropas sob seu comando - uma cavalaria com 40 homens e uma infantaria formada por 60 colonos alemães "voluntários" de São Leopoldo - atacaram sua charqueada.

 

José Leão era o quarto nome na lista do processo que o Império fez contra os farrapos, abaixo apenas de Marciano Pereira Ribeiro, de Bento Gonçalves e de Onofre Pires. Seguidamente escrevo sobre esse vulto da história riograndense durante a Semana Farroupilha, pois me causa surpresa que ele, na cidade de Charqueadas, não seja alvo de homenagem alguma, isto é, não nomeia praça, rua, avenida, escola ou, mesmo, entidade tradicionalista na terra sobre a qual tombou defendendo os ideais farroupilhas. Logo, foi um herói farrapo vencido e esquecido no Rio Grande do Sul do 20 de Setembro, "o precursor da liberdade". Assassinado e injustiçado.

 

Ah, e não posso esquecer de, mais uma vez, esclarecer: alguns escritores lhe atribuem erroneamente a paternidade do autor teatral triunfense José Joaquim de Campos Leão, o Qorpo Santo. Na verdade, ainda conforme Leão Pufal, esse é de outra família Leão, também de Triunfo, sendo filho de Miguel José de Campos e de Joaquina Maria do Nascimento, embora tenha recebido o sobrenome de seu avô materno, Francisco Machado Leão (5). Logo, um herói farroupilha vencido, esquecido, assassinado, injustiçado e cuja biografia é tratada com desleixo e imprecisão. Não poderíamos deixar passar essas coisas em branco às vésperas do 20 de Setembro, não é mesmo?

 

Não sei se Miguel e Artur lerão esse artigo algum dia ou se saberão dessas coisas vasculhando livros - ou uma mídia digital parecida - em alguma biblioteca. O que sei é que fiz minha parte, hoje, mencionando a ligação da região onde eles residem com o 20 de Setembro.

 

Um bom final de semana e um ótimo 20 de Setembro para todos. Cuidem-se, vacinem-se, sirvam de modelo para toda a terra, vivam e fiquem com Deus.

 

 

Referências:

CÂMARA, Rinaldo Pereira. O Marechal Câmara, volume I: reflexões introdutórias à sua biografia. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1964. 453 p.
CÂMARA, Rinaldo Pereira. O Marechal Câmara, volume II: sua vida militar. Porto Alegre: Livraria do Globo, 1970. 624 p.
CÂMARA, Rinaldo Pereira. O Marechal Câmara, volume III: sua vida política. Porto Alegre: Grafosul/Instituto Estadual do Livro, 1979. 664 p.
PIRES, Saldino. Histórias do povo de Charqueadas. um patrimônio desconhecido. Barra do Ribeiro: Naibert, 2012, 94 p.
PIRES, Saldino. Charqueadas, sua origem, sua história, sua gente. Charqueadas: Folha Mineira, 1986, 156 p.
PUFAL, Diego de Leão. A família Leão e a Revolução Farroupilha. Blog Antigualhas, histórias e genealogia, 17 set 2008.

PUFAL, Diego de Leão. Qorpo Santo, um pouco de suas origens. Site Portal de Notícias, 23 set 2016.

VEIT, Benedito. Por que Charqueadas? Arroio dos Ratos: Gráfica PBS, 2008, 66 p.

João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 19/09/2025
Alterado em 19/09/2025
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