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Gruuuunevaaaalllllll...

Era uma madrugada fria de inverno gaúcho em Porto Alegre, naquele julho de 1909. Poppe se mexia na cama, insone, tenso. O vento gelado soprava forte, assoviando pelo lado de fora da casa:
Gruuuunevaaaaallll - parecia dizer.
De repente uma janela se abriu e começou a bater seca e intermitente:
Booth, booth, boorth, booth, booth...
Poppe se levantou, sobressaltado.
- Querido, você está muito agitado. Vê se dorme.
- Vou fechar a janela e já volto - respondeu.
Andou pela casa escura, levantou o vidro e fechou a janela da sala. Ouvia mais nitidamente agora o vento, que soturnamente parecia mesmo repetir:
Gruuuunevaaaaalllll...
"Não foi uma boa idéia do Antenor ter desafiado aquele pessoal para o duelo de amanhã" - pensou. "Ainda mais exigindo que a tropa de elite deles, homens de escol, participasse do desafio. Agora estou eu aqui, nervoso. Eles treinam  no Clube dos Atiradores Alemães, são bombardeiros impiedosos. Mas fazer o que agora? O negócio é encarar. Devemos ir lá e tentar vencê-los no seu próprio Fortim, ou sermos vencidos com honra. Uma coisa quixotesca! Como lutar contra moinhos de vento." E o vento lá fora, provocando-o:
Gruuuunevaaallll...
Olhou para a mulher, deitada na cama. Se tivesse se recusado a participar, como poderia honrar sua esposa? E seus futuros filhos, o que sentiriam se alguém lhes dissesse que seu pai fora um covarde? Não, um homem de respeito é a sua honra e a sua coragem, foi assim que fora educado, assim procederia. Um Poppe não afrouxava nunca!
Deitou novamente. Mesmo ansioso e incomodado com o vento a repetir "gruuuuunevaaaalllll..." Acabou por adormecer depois de um tempo.
Então o inevitável pesadelo, tétrico tal qual uma das dolorosas telas do pintor expressionista alemão Mathias Grunewald, começou...
Estavam na batalha, sendo dizimados sem piedade pelos adversários. A túnica vermelha de alguns companheiros abatidos se tingia de um vermelho brilhante, denso.. sanguíneo! Estava caído ao chão e um dos atiradores alemães chegou perto e mirou, olhar seco, nervos de aço, impávido, vazio, estilo próprio dos matadores.
- Vou te dar o tiro de misericórdia, você morerá - disse, com o sotaque carregado.
- Não, não - gritou suplicante, me poupe, me poupe...

- Acorde querido, o que foi, porque está gritando o seu próprio nome? Teve um pesadelo?
- Sim querida, mas está tudo bem agora, volte a dormir que eu também vou fazer o mesmo.
A esposa obedeceu, sabia que o marido era fechado e não gostava de falar de suas preocupações. Não era o seu próprio nome que ele gritava, mas melhor deixá-la pensar assim.
Aquele domingo amanheceu com o sol claro, mas ventoso, como a noite. Um incomodativo ventinho gelado, mas agora mudo, pelo menos.
Após o almoço com a esposa, pegou a sacola com o uniforme e saiu, em direção ao Bairro Moinhos de Vento, seu destino. Ao chegar nas proximidades do Fortim da Baixada, viu os companheiros, que os esperavam.
- Tudo bem Poppe? Está com cara de que não dormiu direito? - perguntou Antenor.
- Não é nada, tudo bem.
Cumprimentou seu irmão e percebeu, pelo seu silêncio, que também estava receoso com o que poderia vir em seguida.
Dirigiram-se ao Clube dos Atiradores Alemães pra se fardarem.
O vento frio incomodade Poppe, cheio de maus pressentimentos para aquele match. Ainda mais ele, o guarda-metas, o homem para onde toda a artilharia dos alemães iria se concentrar...
Premonitórios os temores da noite anterior de Poppe.
Naquele dia, Booth, atacante do time adversário, fez os primeiros cinco gols. O vento, que ficava mais frio ao cair da tarde, só ampliava a dor da derrota cabal que acontecia.
"Antenor, seu estúpido arrogante, porque não aceitou jogar com o segundo quadro deles".
Depois o outro atacante, o temido Grunewald, rápido e frio como o vento, fez mais quatro gols. Desastre, era o primeiro jogo do recém fundado Internacional. Sua bela esposa era uma das moças que assistia sentada o Grenal do pavilhão social do Fortim da Baixada, como convidada.
Após o nono gol, abatido, derrotado, procurou paz nos olhos da esposa, que fitava-o preocupada, com dó. Ela sorriu pra ele. Era uma boa esposa, virtuosa, companheira. Tinha sorte em tê-la desposado.
O jogo encaminha-se para os seus minutos finais, aliviando o desconforto emocional e psicológico de Poppe.
Então outro jogador do Grêmio escapou da marcação e entrou na área. Foi tudo muito rápido. Seus olhares se cruzaram. Poppe viu nos olhos de Moreira o mesmo olhar que vira nos olhos do atirador do pesadelo. Moreira deu um chute forte, potente, sem nenhuma chance de defesa para Poppe.
Foi, realmente, o tiro de misericórdia: 10X0!
O desânimo, o olhar vazio dos companheiros deixava claro que aquela derrota tinha sido avassaladora. Alguns nunca mais, depois disso, voltariam a jogar futebol, tamanho foi o abatimento.
À noite, deitado em sua casa, o vento continuava, impiedoso:
Gruuuunevaaaallll, gruuuunevaaaallll...
A maldita janela novamente abriu:
Booth, booth, booth..
Levantou e foi quieto fechar a janela. Era um homem, um esposo, não se abatia. Ao voltar, viu que a mulher lhe sorria. A vida continua para os valentes, mesmo na derrota. Naquela noite, não teve pesadêlos. Dormiu profundamente.

(Imagens retiradas da Internet - telas do pintor Mathias Grunewald)


João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 21/07/2009
Alterado em 23/07/2009
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