João Adolfo Guerreiro
Descobrindo a verdade/ sem medo de viver/ A liberdade de escolha/ é a fé que faz crescer.
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Textos


Pudim

BUUM
O barulho forte e seco me assustou, achei que era um rojão que tinham soltado. Olhei a movimentação na rua e vi você caída no asfalto, se esticando toda. Puxa vida, que sensação ruim. A dona Eva foi lá e te recolheu do asfalto e colocou na calçada, dentro do pátio. Você toda tesa, esticada, respiração forte e rápida. Segurei tua pata e acariciei teu pescoço, que era tudo o que eu podia fazer. A boca aberta, os dentes a mostra, em expressão de dor lancinante. Eu desejei que você morresse logo, por piedade, pra não ficar sofrendo. Mas você queria viver, lutava, emitia pequenos grunhidos de dor. Meu coração estava partido enquanto você agonizava.

Lembrei da Solidão, que também morreu em meus braços, daquela virose danada; da Gata Preta, também; do Billy, que eu soltei e ele saiu correndo pra rua, numa manhã igualmente fatal, quando o pátio não tinha cerca ainda. Lembrei do Afre, lá no hospital, eu segurando a mão dele no momento derradeiro, sentindo o coração dele em colapso. O nosso corpo físico, animal, é uma máquina programa para sobreviver e, no momento final, é sempre tortuoso ver sua luta para não perecer. Esses fatos todos mexeram muito comigo e tu, Pudim, em agonia, me trouxe todos eles na mesma hora de volta à memória. É duro ver a vida que se esvai e a luta do corpo para impedir, é traumatizante, a gente nunca mais é o mesmo depois desses processos. E todos eles desabaram sobre mim novamente no domingo passado, Pudim, ao te ver na mesma situação.

A Rosi chegou em casa, chorou ao te ver ali, mas teve o tino de contatar pelo Whatts App a Laila para que ela indicasse um veterinário, para onde te levamos de taxi. O que mais fazer? Você estava ainda desacordada, mas respiração normalizara. O quadro era grave, mas havia uma réstia de esperança, dessas que a gente sempre se agarra nesses momentos de angústia e desespero para suportar o repuxo do tirão seco.

Confesso que nem fiquei com raiva do filho da puta que te atropelou na manhã do domingo passado, perto das 11 horas. O desespero e a dor de te ver ali e saber que a perda era inevitável era um sentimento maior do que qualquer outro. O vazio, o nada, o oco por dentro. Tentei chorar, não consegui. Quando achei o Jorginho morto, eu chorei, desabafei. Com você não, o choque foi tão grande que sequei na hora, nada saiu de dentro de mim, por mais que eu tentasse aliviar.

Ter de te trazer do veterinário pra casa no táxi do Nilson, colocar teu corpo na área, sobre as cadeiras, com a Rosi e a Joana chorando copiosamente sobre teu corpo, acariciando teu pelo, e ter de te enterrar naquele anoitecer chuvoso, foi foda. A Coruja apareceu para ver eu cavar tua cova e, depois, acompanhou o enterro, junto com a Joana e o Júlio. Veja, justo a Coruja, que era a única que te metia a unha! A Rosi não quis assistir. Quando enterrei o Jorginho, tu e a Coruja estavam lá, lembra? Nunca pensei que estaria te enterrando um mês e um dia depois ao lado dele. A Vulcana e o Botafogo não vieram. Mas o Botafogo, ontem à noite, grunhia, choroso. Era a tua falta que ele sentia.

Eu fiquei o dia inteiro ontem pensando em ti, todo o tempo. Sentindo a perda. É egoísmo, eu sei, mas é inevitável sentir isso. Não consegui pensar com raiva no cara que te atropelou, não consegui desejar que ele, um dia, correndo, capotasse, batesse num poste e se arrebentasse todo, morrendo em agonia, como tu. Sabe por quê? Por até uma praga dessas deve ter uma mãe, uma namorada, esposa, alguém que, se acontecesse isso com ele, estaria sentindo o que eu sinto agora, sentiria o que eu senti agarrando a tua pata e acariciando teu pelo no domingo. Não desejaria isso para essas pessoas. Vou ser bem sincero: não é por ele, não. Nunca fui hipócrita, esse tipo de gente tem mais é que se foder mesmo, mas quem sofre depois são aqueles que os amam e, creia, tem quem ame até uma imundície dessas. Sempre tem. Deus sabe o que faz, quem sou eu para discutir com Ele. Então não desejo o mal pra quem ama aquele bosta como nós te amamos.
A Rosi disse:
- Se ele soubesse a dor que causou...

Não deve saber, não deve estar nem aí. Se estivesse, não estaria voando de carro numa avenida dentro de um bairro de cidade pequena. Tudo bem, rua não é lugar de cachorro, mas se o filho da puta estivesse na velocidade limite para a via pública, não teria feito isso contigo. Eu queria dar pra ti e para o Botafogo um pouco de liberdade nos domingos de manhã, arejar um pouco, dar uma andada. E veja: a gente acha que faz o bem para os outros e abre as portas para o mal, o mal de quatro rodas, desses guris de merda que estão sempre correndo, muitas vezes bêbados, esses predadores do volante, matando gente, matando bicho e, muitas vezes, se matando também. Guris de merda.

Lembrei ontem de que também foi com o Nilson que eu e a Joana fomos te buscar de táxi lá na casa do amigo dela. Era para pegar o teu irmão, mas a Joana te viu e se apaixonou pelo teu jeito serelepe. Eu insisti para levarmos teu irmão, mais calmo, mas a Joana bateu pé por ti e o Jessé deu o teu nome, já que tu era uma bolinha de pelo mole. A Joana sabe das coisas. E eu também. Tu era uma maravilha e era uma praga, também, uma doce praga, uma praguinha medoinha. Não é porque tu morreu que eu vou te aliviar, Pudim. Sempre virando um vaso, sempre incomodando os meus gatos, puxando roupa do varal. Ah, as roupas do varal! A Rosi queria te matar por isso! Fazia ela ter de lavar novamente várias peças. O Botafogo, em dez anos, nunca puxou uma roupa da cerca. Tu, em um ano e meio, fez misérias. A Rosi pedia pra mim te acorrentar e tu ficava lá, latindo feito uma doida, sem parar, sem dar dez segundos de trégua. Ah, ia esquecendo: como tu latia! Como é que tu tinha ar e pulmão para latir tanto? O Pedrinho tinha gana de ti por isso, principalmente quando ele tentava tirar uma soneca pela tarde, cansado do serviço. Mas, Pudim, confesso: doía-me ter de te acorrentar, mas era preciso, enquanto as roupas não secassem e fossem recolhidas.

E sempre roendo algo! Garrafa pet, pau, pedra, papel, o que fosse! A cerca de arame da área, para entrar dentro e revirar tudo, incomodar os gatos e comer a ração deles. Inclusive a fita veda-rosca do cano que tu pegou assim que eu me distraí arrumando aquela merda daquele vazamento, esses dias. Ah, que ódio ao ver tu detonando aquilo com a boca, deu vontade de te enfiar a tesoura que estava na minha mão. Mas não consegui, nunca conseguia, o máximo que fazia era te afastar com o pé. Ah, e tu arrastava o Jorginho pelo cangote! Não sei como aquele gato te aturava, Pudim. Agora estão ali, lado a lado, os dois. Vocês tinham um caminho juntos para trilhar, mesmo. Encheram nossa casa de alegria.

Nunca mais vou te ver me esperando chegar em casa, pulando em cima de mim e sujando minhas calças em dia de chuva, enquanto eu falava "Puuudim, Puuudim, de tragou, de tragou"; de prontidão na porta toda a vez que a gente a abria pela manhã; deitando-se de costas para ganhar carinho na barriga, pulando em cima da gente quando estávamos sentados na cadeira da frente da área de entrada, que era “tua propriedade”, disputando carinho com o Botafogo sem dar-lhe a mínima chance. Nunca vou esquecer o cheiro da murrinha de cadela do teu pelo. Eu gostava. E de ter de botar a mão no teu pescoço para impedir que tu lambesse meu rosto. Ah, Pudim, isso era intimidade demais para mim.

Hoje pela manhã fui dar bifinho para o Botafogo. Joguei para ele aparar. E tu não estava ao lado dele, para fazer o mesmo. Ah, nossos cafés da manhã.
- Cadelinha, cadelinha, cadelinha, cadelinha, cadelinha – não vou mais falar isso rápido como trava-língua enquanto te coço com força.  Era teu gáudio isso, tu adorava, eu sabia.

Agora ficaram aqui a Tânia, o Fantomas, o Peter (eu estou colocando ele no pátio com o Botafogo, pois ele está matando as galinhas do seu Pedro, acredita? Isso mesmo, as mesmas galinhas que tu corria e roubava os ovos), a Bolinha, a Vulcana, a Coruja, a Salsa e o Teco. Ah, o Teco, que corridão tu deu nele logo que eu te soltei no domingo, lembra? Ele nunca subiu tão alto e rápido na árvore. Tenho certeza de que, com a convivência, ele ia se acostumar com teu jeito brincalhão e pegajoso, mas não predador. Vai ver tu iria arrastar ele pelo cangote, que nem fazia com o Jorginho.

Ah, pudim, que saudade. Tua partida e a do Jorginho me deixaram pra baixo, tiraram meu ânimo para o Natal. O vazio, o nada, o oco por dentro continuam. Ainda tento chorar, mas não consigo. O choque ainda é tão grande que continuo seco, nada saía de dentro de mim.

Adeus, querida.

PS - Ah, aquela cerveja pra cachorro que eu comprei pra ti e pro Botafogo na Agrofer: a tua eu vou dar para o Peter. Uma lástima tudo isso, né. Acho que tu, principalmente tu, iria adorar e querer mais, eh eh eh eh eh.


João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 06/12/2017
Alterado em 07/12/2017
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