João Adolfo Guerreiro
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José Manuel, o farrapo esquecido

Ele é tanto um herói quanto um mártir charqueadense. O único herói e mártir chefe farroupilha da história de Charqueadas. Entretanto, não há homenagem a esse coronel farrapo. Não existe rua, avenida, praça ou escola com o seu nome. Tampouco invernada, piquete, DTG ou CTG.

José Manuel de Leão nasceu em Laguna, Santa Catarina, em 03 de julho de 1788, um dos quatro filhos varões do tenente-coronel Manoel José de Leão e de Antônia Maria de Jesus. Em 1801 vem com a família para Triunfo - RS, onde o pai passa a atuar na produção de charque bovino. Em 1816 já está casado com Ana Ferreira da Silva e é proprietário de duas charqueadas, uma perto da foz do Arroio dos Ratos e outra na Ilha da Paciência. Seu irmão Francisco Manuel Leão também tem um estabelecimento na margem charqueadense do rio Jacuí. Juca (*) e Chico Leão, irmãos charqueadores. Alguns historiadores afirmam que o nome da cidade de Charqueadas se deve ao estabelecimento saladeril de Juca, que seria o maior e mais moderno dos ali situados.

Não bastasse isso, a biografia desse homem coloca Charqueadas na história da Revolução Farroupilha, embora esse fato não seja mencionado na maioria dos livros de história. Juca Leão, já coronel e vereador em segundo mandato em Triunfo, é revolucionário de primeira hora quando eclode o 20 de Setembro. Contemporâneo e amigo do triunfense Bento Gonçalves, mantém correspondência com este e com outros líderes rebeldes, como David Canabarro.

Ao iniciar a revolta, farda e arma cerca de cem escravos de sua propriedade e os entrega ao comando farrapo, além de atuar militarmente na região em favor destes. No processo aberto contra os farroupilhas em 14 de outubro de 1836 no Juízo de Paz do 2º Distrito de Porto Alegre, seu nome é o quarto na lista dos réus, abaixo somente de Bento, Onofre Pires e do Dr Marciano Pereira Ribeiro.

Em 18 de setembro de 1839, pela madrugada, sua charqueada próxima ao arroio é cercada e Juca e Chico Leão são mortos em combate por tropas imperiais compostas por quarenta homens de cavalaria e sessenta de infantaria (esses, colonos alemães “voluntários”). O genealogista Diego Pufal informa a versão de que os mesmos teriam sido friamente assassinados depois de capturados pelo major Francisco Pedro de Abreu, sendo seus corpos expostos diante dos familiares. Além dos irmãos Leão, outros cinco membros da guarda rebelde foram mortos (dentre esses, Antônio Turpim) e nove outros foram feitos prisioneiros (dentre eles o tenente Jerônimo e o alferes Inocêncio), conforme relatório do major Abreu.

José Manuel de Leão deu seus bens e sua vida pela causa da Revolução Farroupilha. Entretanto, ainda hoje permanece esquecido pelos livros de história e pela cidade onde trabalhou, lutou e pereceu aos 51 anos. Mesmo assim, o farrapo esquecido é um herói e um mártir, junto com seu irmão e seus comandados. Herói e mártir da cidade que sua charqueada nomeou. Na Semana Farroupilha não permitamos que seu nome se dilua como sal jogado nas águas do Jacuí.



(*) – Conforme alguns historiadores, “Juca” era a alcunha de outro dos irmãos Leão, não de José Manuel.

REFERÊNCIAS:
PIRES, Saldino Antônio. Charqueadas: sua origem, sua história, sua gente (1986);
PUFAL, Diego Leão. A Família Leão e a Revolução Farroupilha. (artigo, 2008);
TIBURI, Margarida. Charqueadores, estancieiros e vereadores (2013);
VEIT, Benedito. Por que Charqueadas (2008).


Texto publicado na seção de Opinião do Jornal Portal de Notícias, nas versões online e impressahttp://www.portaldenoticias.com.br
 
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 24/09/2016
Alterado em 24/09/2016
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