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Parcela e atropela

O governo estadual aprovou o projeto sobre a previdência dos servidores públicos estaduais em regime de urgência, na quarta-feira, na Assembleia Legislativa (AL/RS), com a casa cercada pela Brigada Militar e com suas galerias vazias.

Ora, mas se o governo já anunciou não vai contratar nem nomear ninguém em 2015 e 2016 e se a nova norma só vai valer para os futuros servidores, porque teve tanta pressa? Realmente, essa matéria poderia ter sido melhor discutida antes de ser votada em plenário na AL/RS, visto o atual quadro político-administrativo acirrado. O governador parcela e atropela.

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PESOS & MEDIDAS – Muitos criticaram os servidores públicos gaúchos por terem impedido que deputados e funcionários entrassem na AL/RS na terça-feira, impedindo a votação do projeto da previdência. Todavia, o clima de acirramento de posições foi ocasionado pelas táticas do governo estadual para forçar a tramitação de seus projetos no Legislativo: 1 – fez um parcelamento de salários sem necessidade, visando criar uma situação favorável à aprovação de seus projetos, quando poderia ter encaminhado, antes, a alteração no limite de saque dos depósitos judiciais para pagar a folha em dia, medida que possui aval de todas as bancadas e do Judiciário; 2 – a pressa em votar projetos que atingem conquistas históricas dos servidores (e que não terão aplicabilidade imediata), de forma açodada, sem o devido debate. Assim colocado, a atitude dos servidores mais parece uma reação natural ante um quadro hostil a que foram submetidos.
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CONSTRANGIMENTO - Nessa celeuma toda ocorrida na Assembleia, fico mais sentido é pela situação dos servidores da BM: ter de ir à AL/RS proteger aqueles que estão retirando os seus direitos dos que estão lá protestando para defendê-los. Imagino o constrangimento dos brigadianos escalados para essa tarefa. A tropa combatendo contra si mesma. Paradoxal. Minha solidariedade a esses profissionais importantes para a sociedade gaúcha no exercício da sua função.
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AUMENTO DE IMPOSTOS no Brasil e no RS – Meu ponto de vista: pagava CPMF no governo FHC e nunca me incomodei com isso (ela atinge, na verdade, quem tem muuuuito dinheiro para aplicar em investimentos financeiros). Na atual conjuntura, como cidadão e contribuinte, que paga e não sonega impostos, sou a favor de sua volta e também favorável do aumento do ICMS proposto pelo Governo Sartori (se os empresários frequentemente aumentam os preços de seus serviços e mercadorias, porque o governo estadual não pode aumentar em 1% o ICMS a fim de manter os serviços à população?). Pior, penso, é um Estado inviabilizado, sem capacidade de investir em saúde, segurança, educação, assistência social e infraestrutura. Mas, claro, há de se pressionar também por uma reforma tributária (quem ganha mais, paga mais) e combate ao grande mal da sonegação, que é pior que o da corrupção (é só ver os números da Operação Zelotes), que também deve ser combatida. Finalizando: estaria enganado em dizer que as nações onde o imposto cobrado é mais alto são justamente as que possuem os maiores índices de desenvolvimento humano (IDH/ONU) do planeta?
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MÍNIMO – Sempre pensei que, no fundo, aqueles que defendem um “estado mínimo”, na verdade, conscientemente ou não, defendem uma sociedade com direitos econômicos e sociais igualmente mínimos. “Enterra todos na vala comum de um discurso liberal” – Humberto Gessinger.





Texto publicado na seção de Opinião do jornal Portal de Notíciashttp://www.portaldenoticias.com.br
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 17/09/2015
Alterado em 21/09/2015
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Imagem de cabeçalho: inoc/flickr