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Boechat x Malafaia: O Brasil nos Tempos do Cólera

A mais recente polêmica no país foi a troca de ofensas públicas entre o pastor Silas Malafaia e o jornalista Ricardo Boechat. Um feio exemplo de como estão sendo conduzidos os debates ideológicos no país de 2014 para cá.

A partir de um comentário de Boechat na rádio Bandeirantes sobre a agressão sofrida por uma menina e sua avó no Rio de Janeiro, motivada por intolerância religiosa e cometida por pessoas que supostamente seriam evangélicas, Malafaia respondeu em sua conta na rede social Twitter, dirigindo ao jornalista delicadezas como “falando asneiras”, “falastrão”, e “verdadeiro idiota”. Boechat retribuiu-as com mais gentilezas: “Vai procurar um rola, vai. Não me enche o saco, você é um idiota, um paspalhão, um pilantra, tomador de grana de fiel, explorador da fé alheia”, “eu não vou te dar palanque porque você é um otário”, “você é homofóbico, um figura execrável, horrorosa” e “você é um charlatão”.

Uma feira de excessos e de intolerância verbal vinda de duas pessoas que deveriam zelar pela fala comedida e respeitosa na seara pública, justo pela posição que ocupam. Em primeiro lugar, no caso do pastor, era de se esperar que alguém que deve ter lido nos evangelhos coisas como “mas, se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra” e “amarás ao teu próximo como a ti mesmo” fosse menos agressivo e desrespeitoso em suas manifestações; em segundo lugar, um jornalista deve, além de primar pela objetividade em suas considerações, respeitar seus interlocutores quando alvo de alguma crítica ou contestação, mesmo que grosseiras.

O pior é que pessoas situadas em ambos os lados do confronto vibraram com as colocações dos contendedores. Entretanto, para além do cerne da discussão entre ambos, está a inadequação da forma como procederam, eis que essa trabalha no sentido oposto do da construção de pontes de diálogo entre diferentes posições ideológicas, inviabilizando o estabelecimento de formas de coexistência numa sociedade plural, diversificada e democrática como o Brasil. A intolerância anuncia a falência da política e a falência desta é o caminho para a guerra; o desrespeito ao outro é um dos pressupostos da intolerância. Daí é fácil lembrar o que tudo isso poderá gerar... Lembram da Alemanha dos anos 1910, 20 e 30? Os 70 anos do final da Segunda Guerra Mundial são tanto uma resposta como uma lição a não ser esquecida.

Estou exagerando? Creio sinceramente que não, pois esse fato não está fora de contexto, visto a enormidade de exemplos cotidianos com esse mesmo espírito de porco que são diariamente veiculados pela mídia ou que vemos em nosso dia a dia. Um fato que presenciei essa semana: olhando pela TV numa lancheria a notícia do falecimento recente de um jovem cantor em acidente automobilístico, perguntei se alguém conhecia alguma canção dele. Uma pessoa me respondeu. “Eu não, esse daí não me fará falta nenhuma”. Fiquei surpreso, pois, como seres humanos, é normal que fiquemos tocados pela dor do outro, pela dor de sua família. Todavia, o comentário da pessoa está situado no mesmo contexto da polêmica acima, nesses tempos em que um dos temas centrais é o ódio que viceja nas redes sociais da internet.

Cabe as pessoas ponderadas e de bom senso, independente de suas ideologias ou pontos de vista, trabalhar em sentido positivo, visando uma ação comunicativa entre os diferentes atores sociais que habitam o mesmo espaço geográfico, construindo as pontes necessárias a nossa coexistência numa sociedade onde cada um é dono apenas da sua própria verdade, observando o direito do outro de ter a sua e viver em paz, sendo respeitado. Fora isso, caminharemos pela estrada que conduz à violência, com o coração endurecido e a mente turvada por pseudo-certezas ideológicas ou pela indiferença.


Texto publicado na seção de Opinião do jornal Portal de Notíciashttp://www.portaldenoticias.com.br
João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 25/06/2015
Alterado em 02/07/2015
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