João Adolfo Guerreiro

Descobrindo a verdade/ sem medo de viver/ A liberdade de escolha/ é a fé que faz crescer.

Textos


Inter Campeão Mundial. Parabéns! Mas não exagerem...


Considerações iniciais

A grande felicidade que tomou conta dos torcedores do Internacional com a conquista do mundial interclubes no Japão não é desmotivada. O título, por si só, já é o feito máximo de um clube de futebol. Ganho ainda em cima daquele que é considerado o melhor time do mundo e que, inclusive, conta com o melhor jogador do mundo (Ronaldinho Gaúcho) e era amplo favorito para o título, o feito toma uma amplitude ainda maior.
Eu, embora seja torcedor do Grêmio e uma criatura deste mundo de Deus, cosmopolita (em tese), moro no Rio Grande do Sul e sou brasileiro e latinoamericano. Assim, torci para o Inter ganhar o mundial. Um dos poucos gremistas daqui de Charqueadas que teve essa postura pública.
O Inter ganhou. Tudo muito bom, tudo muito bem.
Mas eis que abro os jornais e já vejo alguns colorados caindo em arrogância a desdenhar o título mundial interclubes do Grêmio de 1983, conquistado no mesmo país contra o Hamburgo, da Alemanha, por 2x1.
Bom, daí então resolvi me manifestar e já vou lembrando aos colorados o dito popular: “Devagar com o andor que o santo é de barro”! E é muito apropriado o ditado neste momento...

1 – Pequeno histórico do mundial interclubes
A flauta colorada baseia-se:
O1 - no fato do presidente da FIFA ter mencionado que só o Inter, o Corinthians e o São Paulo são os brasileiros campeões mundiais;
02 – no antigo despeito de alguns colorados em chamar o antigo mundial de “Copa Toyota”, ou seja, de ser um título de apenas um jogo.

Em primeiro lugar, não li a frase do presidente da FIFA nos jornais e tampouco sei se ela foi colocada fora de um contexto ou não. Pois, se o presidente da FIFA desmerecer os outros mundiais que desde os anos 60 ocorrem e que dentre os times brasileiros teve como campeões o Grêmio (1983), o Flamengo (1981), o bi do Santos (1962-63) e o bi do próprio São Paulo (1992-93), além dos vices do Cruzeiro (1976-1997), Vasco (1998-2000), Palmeiras (1999) e Grêmio (1995), estaria cometendo uma bobagem impensável para uma pessoa que ocupa tal cargo.
Mais ainda: quantos times europeus e latino americanos também incluem em seu currículo esse título com orgulho?

Em segundo lugar, o título mundial interclubes está no seu terceiro formato.
De início, na época em que o Santos foi bi-campeão, era um jogo em cada país, entre o campeão da América e o da Europa. Quando Flamengo, Grêmio e São Paulo (bi) conquistaram o título, já era apenas um jogo em campo neutro, em Tóquio.
Atualmente, quando São Paulo e agora o Internacional venceram, já são mais jogos, ainda no neutro Japão, entre os clubes da Ásia, África, Oceania e América do Norte na primeira fase, jogando entre si, e depois entram os campeões da Europa e América do Sul, disputando uma semi-final com os vencedores da primeira fase para decidir-se os clubes que irão a final.
Logo, veja-se, a fórmula não mudou muito. Os campeões da América do Sul e da Europa ainda são beneficiados pelo regulamento e continuam decidindo numa partida apenas o título.


2 – Inter: time brasileiro (residualmente gaúcho e internacional) e do $$$

Dos 23 jogadores que foram ao Japão pelo Inter, apenas 03 (reservas) eram gaúchos: os dois goleiros e o Luis Adriano, que o faz o 2º gol no primeiro jogo, contra o Al Ahly. Outros 02 eram estrangeiros (Peru e Colômbia) e os 18 restantes são assim distribuídos: 05 paulistas, 03 cariocas, 03 cearenses, 03 paranaenses, 01 maranhense, 01 capixaba, 01 alagoano e 01 goiano. O treinador é carioca. Os gaúchos que o Inter tinha quando ganhou a Libertadores foram todos vendidos para o exterior: Rafael Sobis, Tinga e o Bolívar.
(O único gaúcho que começou o jogo do mundial foi... Ronaldinho Gaúcho, do Barcelona! Só quando o Inter colocou Luis Adriano no segundo tempo, é que teve um gaúcho defendendo sua camisa!)
Assim, em termos percentuais, o Internacional é 78% brasileiro, 13% gaúcho e 9% Latino-americano. Acho que os números falam por si.
O Inter é um clube gaúcho, com diretoria gaúcha, torcida gaúcha, mas possui um time brasileiro!
Claro, não é diferente a todos os times da primeira divisão do futebol brasileiro, que tem mais $$$ e atraem para seus quadros jogadores de outras partes do país. Só não tem mais estrangeiros, como o Barcelona, por exemplo, porque não tem os $$$$$$ dos times da rica Europa.
E vejam que não falta ao futebol brasileiro e gaúcho nada do que não tenha na política brasileira ou no futebol e política da Europa: corrupção, jogos manipulados, desvio de renda, jogadores profissionais que não jogam “pela camisa”, mas sim pelo salário (quantos o Inter segura agora, fora os quatro que foram pra Europa - Jorge Vagner e os gaúchos Tinga, Sobis e Bolívar - ganhar mais $$$ depois da Libertadores?).
Mas isso deve ser ressaltado: o Inter e os demais grandes do Brasil (o Grêmio aí incluído), funcionam na mesma lógica do $$$ dos outros grandes clubes do mundo. Mas como são bem mais pobres, acabam, mesmo atuando na mesma lógica financeira, reforçando a tese de que futebol não é só $$$ ao serem campeões de um mundial contra times europeus. Futebol é também técnica, pegada, planejamento e... paixão!
Interessante essa contradição do conceito na realidade, onde um objeto definido por ele serve como premissa de sua própria desqualificação, não?


3 – Comparações

Nesse caso específico do “ser gaúcho”, o time do Grêmio leva uma vantagem no título de 1983: 4 titulares eram gaúchos (Paulo Roberto, Paulo Cézar, China e Renato), além do técnico, Valdir Espinoza. Em 1995, quando perdeu para o Ajax o título mundial interclubes, o Grêmio era treinado pelo gaúcho Felipão Scolari e tinha igualmente 4 gaúchos titulares (Danrlei, Roger, Carlos Miguel e Arilson).

Outra: até meados da década de 90, os times da América do Sul ainda seguravam seus grandes jogadores. Penharol, Nacional, Boca Juniors, River Plate montavam timaços! Pois hoje os times Argentinos, Paraguaios e Uruguaios sofrem muito com a exportação de jogadores, cada vez mais novos, situação que atinge em menor medida o futebol brasileiro, por seu maior poder econômico e sua maior reposição de atletas talentosos. Ora, não é á toa que tivemos as duas últimas decisões da Libertadores realizadas entre times brasileiros. Fatos são fatos!
Pois eu estou querendo dizer aqui é que ganhar uma Libertadores e ir pro Japão a dez anos atrás era uma coisa, atualmente é outra e mais facilitada para os grandes times do futebol brasileiro. Assim, chegar a uma final de Libertadores, para um time do gabarito do Inter, está bem mais fácil.

E, como a comparação é entre os rivais, devido as flautas arrogantes que começam a se orquestrar por aí, devo dizer em vantagem para o meu time: são seis títulos nacionais (dois campeonatos brasileiros e quatro copas do Brasil), duas Libertadores da América, um Vice-mundial, uma Recopa Sul Americana e um Mundial Interclubes. É um cartel que ainda não foi igualado pelo rival.
Ah, ai esquecendo, são sete títulos nacionais, pois ano passado fomos os campeões da Segunda Divisão de forma "inacreditável", fazendo o impossível acontecer... (veja outro texto em minha página)


Considerações finais

Bueno, então reafirmo aos flautistas colorados que “tomem cuidado como andor que o santo é de barro”. Clube por clube, o Inter está bem próximo ao Grêmio, mas não o igualou ou superou ainda.
(Ah, não se esqueça que o Grêmio foi o único time que parou o Inter nesse ano, ao sagrar-se camprão Gaúcho em pelno Beira Rio, coisa que São Paulo e Barcelona não conseguiram.)
Mas a rivalidade, que acho salutar quando é na brincadeira e se restringe a disputa direta entre os clubes, deve ser reavaliada. Equivocados, no meu ponto de vista, os colorados que torceram para o Ajax em 1995, assim como os gremistas que secaram o Inter e torceram para o Barcelona.
O título do Inter vai elevar mais ainda o futebol brasileiro e, principalmente, gaúcho. Vejam: o clássico grenal será agora um clássico mundial, pois realizado entre dois campeões do mundo! Isso não é brincadeira. Só em São Paulo isso ocorre, com São Paulo, Santos e Corinthians. No Rio de Janeiro e em Minas Gerais, por exemplo, duas potências do futebol nacional, isso não ocorre.
Gauchada, pense: o Inter é campeão mundial, Ronaldinho é o melhor jogador do mundo, Felipão treinou a última seleção brasileira campeã e Dunga é o atual treinador. Grêmio e Inter, clubes campeões mundiais, vão estar disputando a Libertadores da América do ano que vem. Estamos num momento ímpar!
Pra que então, secar? Torcer contra gaúchos e brasileiros?
Veja o exemplo do Fábio Koff, presidente do Grêmio Campeão Mundial de 1983 e vice de 1995: foi um dos conselheiros e consultores do atual presidente do Inter, Fernando Carvalho, nessa gloriosa jornada colorada de 2006. E isso dito na imprensa pelo próprio Carvalho! É assim que se faz! Uns contra os outros, acabaremos como o Bahia e o Vitória: na terceira divisão!
Por outro lado, repararam quantos brasileiros atuaram em Inter X Barcelona? Quatro pelo lado do Barcelona (Ronaldinho, Deco, Motta e Beletti) e 13 pelo lado do Inter! Isso mesmo, no futebol temos um esporte de alto nível com amplo predomínio brasileiro.
Isso não enche barriga nem dá cultura pra ninguém, claro, mas mostra que uma nação, quando trabalha por algo e desenvolve talentos, pode chegar a um patamar satisfatório de desenvolvimento.
E colorados, por fim, aproveitem o momento. Ele é como uma relação amorosa: você tem muito prazer no antes e no durante, explode na hora H e depois vai relaxando. Acaba por virar uma saudável lembrança, uma história para contar. Eu, como gremista, tenho experiência de sobra nisso, vão por mim.



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João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 20/12/2006
Alterado em 10/05/2011
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