João Adolfo Guerreiro

Descobrindo a verdade/ sem medo de viver/ A liberdade de escolha/ é a fé que faz crescer.

Textos


Grêmio entregará
indiretamente o jogo. Lamentável!



A situação é surreal, insólita.
Gremistas torcendo contra o Grêmio, colorados torcendo para o Grêmio.
Aquele que disse um dia a gente morre e não vê tudo foi verdadeiramente um grande sábio.
A grande questão ao final do campeonato brasileiro 2009 é essa: o Grêmio deve satisfazer a cerca de 75% da sua torcida e entregar o jogo para o Flamengo no próximo domingo ou deve honrar sua camiseta e história?
Motivo da entrega: não permitir, de forma alguma, que o seu time rival no RS, o Internacional, também sediado na capital gaúcha, seja campeão brasileiro. Uma vitória ou empate do Grêmio no Maracanã, combinado com um resultado positivo do Inter contra o Santo André nesta última rodada do campeonato no Estádio Beira Rio, daria o título ao “Colorado” (apelido do Internacional, devido a sua cor ser o vermelho).
Mas, a esta altura dos acontecimentos, sábado pela manhã, já sabemos que o Grêmio vai com o seu time reserva enfrentar o Flamengo. A decisão já está tomada: indiretamente o Grêmio não vai entregar o jogo, por que os jogadores, creio eu, não vão deixar a bola passar. Mas o time vai estar tão descaracterizado que não terá chance nenhuma de empatar. Com certeza vai ser goleado, fora um milagre que os deuses do futebol queiram fazer pra dar uma lição na direção do Grêmio e em grande parte de sua torcida.

Gremismo x Coloradismo
Uma primeira questão: o que é a paixão pelo futebol? Como ela se forma?
Gostar de futebol é gostar de um clube. Essas preferências são socioculturais, a maioria das pessoas forma a sua preferência por futebol por morar em regiões onde o esporte é praticado majoritariamente por determinado povo. A paixão dá-se no seio familiar, na comunidade, acompanha essas tendências. Eu me tornei apreciador de futebol e gremista por causa disso. Emoção e integração sócio cultural. Sou gaúcho, minha família tinha opções por Grêmio e Inter, eu escolhi a que eu mais gostei. Produto do meio, uma meia liberdade de escolha.
Essa coisa cultuada de rivalidade entre Grêmio e Inter define muito um traço cultural gaúcho nos últimos 100 anos, à partir da importância que o futebol passou a ter na sociedade gaúcha e brasileira, como esporte de massas, catalisador de multidões, de valor cultural.
No RS se é, basicamente, gremista ou colorado. Temos equipes de certa expressão sociocultural em cidades como Pelotas (Brasil), Caxias do Sul (Juventude e Caxias), cintando alguns exemplos, mas, ainda (e principalmente hoje, quando futebol é $$$), falou em futebol e paixão no RS, falou em Grêmio e Inter, em azul e vermelho, antagonismo cultural e “genético”! Daí se criou a tal rivalidade desmedida.
Então muito da opção por um time no RS se dá por uma posição antagônica à outro, e daí temos a primeira explicação daqui: a torcida gremista é essencial e fundamentalmente anti-colorada, por isso prefere ver o Grêmio perder o jogo contra o Flamengo, pra não ter de ajudar o “inimigo colorado” a triunfar, numa atitude que contraria totalmente o que se espera de alguém que torce pra um time e que deveria obviamente torcer pela vitória deste e que deveria também defender a ética na vida e no futebol. A recíproca colorada é verdadeira, tenho certeza, que se diga claramente isso.
Assim, vê-se que no futebol gaúcho a deformação do futebol produz um monstro onde o amor ao seu time fica aquém do ódio ao outro: “Torço contra o Grêmio pro Inter não ser beneficiado!” Os colorados, em sua maioria, tenham certeza, diriam o mesmo.
Esse viés torto, por exacerbado (e, por exacerbado, doentio), é o que forma a consciência futebolística gaúcha, lamentavelmente.

Anti-coloradismo
Eu criei uma máxima explicativa, numa fórmula quase matemática:
Anti-coloradismo + torcer contra o Grêmio = 100% coloradismo.
(A partir daqui já passo a contar com o ódio de 75% dos gremistas, que já devem estar me insultando de traidor, de colorado enrustido, de tudo o que você possa imaginar de ofensivo e desabonatório.)
Pra mim, o anti-colorado que torce contra o Grêmio é mais anti-colorado do que gremista, pois seu amor ao Grêmio é menor que o seu ódio ao Internacional.
E digo ódio mesmo, pois a posição de muita gente chega nessa categoria de sentimento. Um coisa sem explicação, pois não vejo motivo para tal sentimento, futebol é uma brincadeira séria pra torcida. Ou, como disse o escritor colorado Juremir Machado da Silva (tá, já estou até ouvindo os palavrões contra mim neste momento por citar um colorado): “Futebol é negócio pra empresários, profissão para os jogadores e paixão para os torcedores”. Nada mais realista a ser dito sobre o futebol. Os negócios muitas vezes corrompem o futebol, o profissionalismo o torna insípido e a paixão o torno belicoso, pois a paixão, já disseram com muita propriedade, cega e incendeia.
Quem ama não mata”, por isso o anti-colorado, ao torcer contra o Grêmio, prova que é mais anti-colorado do que gremista: morte ao Grêmio, se assim o Inter também morrer.
Mas, insisto, quem ama realmente, não mata. A torcida do Grêmio está como as duas mulheres daquela história de Salomão que disputavam a guarda da criança que ele resolveu dividir ao meio com a espada, já que não se sabia quem era a mãe verdadeira. Uma das mães disse tudo bem, que Salomão então dividisse a criança e desse uma metade pra cada uma; a outra pediu então que a criança fosse dada inteira a outra mãe, mas não cortada ao meio, pois daí morreria. A primeira mãe representa 75% da torcida tricolor que prefere torcer contra o Grêmio; os gremistas que se recusam a torcer contra o Grêmio são a outra mãe, pois não querem ver o objeto de amor morto. “Quem ama não mata.” E, na história, a verdadeira mãe era a segunda. Sabedoria salomônica.
O que seria a morte simbólica do Grêmio nesse caso? Seria a atitude imoral e antiética de um clube com fama mundial ao entregar indiretamente um jogo de futebol escalando propositalmente um time reserva pra eliminar a possibilidade de sequer empatar com o Flamengo num Maracanã lotado. O Grêmio está, insofismavelmente, jogando sujo pra prejudicar o Inter, desonrando o espírito esportivo. Sua imagem ficará com uma mancha impura por muito tempo. E os colorados, claro, nunca vão deixar ninguém esquecer disso. E com razão, convenhamos. Eu sei perder, faz parte da vida, mas nunca esqueço e nunca perdoo uma sacanagem. Não posso esperar dos colorados sentimento diferente.

Comunidade gremista no Orkut – um caso à parte
No orkut isso tudo vem à tona. Participo de uma comunidade com mais de 500 mil membros. Na segunda-feira, na enquete onde se perguntava se o Grêmio deveria entregar ou não o jogo, havia 15% de gremistas contrários, 1% indeciso e 82% favoráveis. Ontem de noite, na sexta-feira, já haviam 21% contrários, 76% favoráveis e o restante indeciso. Ou seja, a torcida do Grêmio aos poucos começava a perceber que a coisa não é tão simples assim, embora ainda minoria. Mas uma minoria que aumenta cada vez mais ao se aproximar o jogo e o eminente fiasco. E claro, como sabemos, o Orkut é em absoluta maioria utilizado por jovens abaixo dos 25 anos, logo, é uma posição dos torcedores mais jovens. (Em enquetes realizadas por rádios e tv’s, geralmente fica em 70% os favoráveis pela entrega do jogo ao Flamengo e 30% os contrários.)
E o embate começou a ocorrer nos tópicos, naquele nível bem de torcida em estádio, em termos impublicáveis e de baixo calão em grande frequência. Claro, com a maioria apoiando a entrega do jogo fustigando os contrários. Mas, mesmo assim, um bate-boca legal de se ver.
Deprimente mesmo, todavia, era ver torcedores do Grêmio utilizando em suas fotos de perfil distintivos do Grêmio adulterados (vide anexos)
, usando o vermelho do Flamengo e a palavra “Mengo” em vez de Grêmio; outros usavam distintivos do Flamengo em azul, preto e branco, as cores do Grêmio. Outros ainda usavam um avatar que sobrepunha os símbolos do Grêmio e Flamengo com a palavra “entrega”, que é o mesmo avatar utilizado numa comunidade chamada “Campanha Grêmio Entrega” e que ficou famosa ao ser reproduzida nos jornais brasileiros, para orgulho dos mesmos e para o ridículo do clube, que virou chacota nacional. A comunidade tinha mais de 80 mil membros no sábado pela manhã. Haviam mais umas dez comunidades análogas, mas essa é a mais expressiva.
INFILTRADOS - Outro ponto digno de nota é que a comunidade passou a contar com a participação, enrustida ou mesmo explícita, de flamenguistas, vascaínos, colorados e palmeirenses. Até atleticano eu vi lá. Só não vi sãopaulino.
O pessoal do Flamengo, a maioria, era pra botar pilha no anti-coloradismo dos gremistas, dizendo que seria uma vergonha o Grêmio ajudar o Inter a ser campeão; outros poucos, orgulhosos, diziam que o Grêmio não precisava entregar que o Mengo ganharia igual (bem que alguns desses desconfiei que fossem colorados enrustidos).
Os colorados não duravam muito, eram deletados em seguida assim que detectados pelos moderadores da comu. Claro, sempre esculachando o Grêmio. Alguns se disfarçam de flamenguistas pra ironizar o Grêmio e debochar, visando, claramente conseguir uma antipatia dos tricolores contra os cariocas.
Vascaínos é outra grande presença, e esses geralmente não se apresentam enrustidos. Algumas torcidas organizadas do Grêmio são amigas de torcidas organizadas do Vasco e, em jogos dos times contra rivais comuns, se apoiam. Daí dá pra imaginar o teor das colocações dos vascaínos. Coisas tipo: “Estou colocando no site da nossa comu o que vocês estão dizendo aqui da gente e quando vocês vierem aqui no Rio vocês vão ver” – no caso, os vascaínos se referem aos desaforos que ouvem por gremistas no Orkut quando vem reclamar pedindo ao Grêmio para não entregar o jogo. E os vascaínos são extremamente ofensivos quando se manifestam na comunidade do Grêmio, parecem bastante contrariados mesmo. É, todo bônus tem um ônus...
O pessoal do Palmeiras é o mesmo caso do Vasco: relações de torcidas amigas. São menos contundentes que os vascaínos e em bem menor número, mas cobram a honra do Grêmio pois ainda sonham em vencer o campeonato, o que aconteceria de eles, vencendo o Botafogo, contassem com resultados desfavoráveis de Flamengo e Inter.

O futebol brasileiro está podre e perdido
Podre todo mundo vê por quê: as “malas de dinheiro” corrompem juizes pra arranjar resultados, acariciam o ânimo de jogadores desmotivados, também os tornam suscetíveis a entregar o jogo, coisas assim. Desde aquele campeonato de 2005, com aqueles jogos anulados e o favorecimento explícito ao Corinthians (a torcida corintiana não tem nada a ver com isso), não se vê mais luz no fim do túnel.. O $$$ apodreceu totalmente o futebol que era “paixão das massas”. E a situação na Europa não é diferente, se vê nos escândalos de arbitragem de lá e dos sites de apostas corrompendo estes e os jogadores pra arranjar resultados.
Que está perdido se percebe nessa hora em que a defesa do espírito anti-desportivo e a total falta de ética e princípios é apoiado pela maioria da torcida, dirigentes, e jornalistas comprometidos com o Grêmio: entregar, direta ou indiretamente, um jogo.
O futebol brasileiro, nesse momento, é um retrato da inversão de valores presente na sociedade brasileira? O Grêmio é só o personagem da vez, apanhado de calças curtas? Respondo “sim” para as duas perguntas.

Flamengo, Inter, Palmeiras, São Paulo
O Flamengo nem precisava disso! Tem time pra ganhar do Grêmio completo no Maracanã lotado e ser campeão. O Grêmio conseguiu o feito inédito de terminar invicto o campeonato brasileiro jogando em casa, no Estádio Olímpico. Mas, por outro lado, só ganhou uma fora de casa: do rebaixado Sport Recife.
Assim, pela lógica, não seria páreo para o Flamengo no domingo, nem precisaria ventilar a possibilidade de entregar o jogo ou escalar um time reserva pra facilitar (e o pior, fazendo isso com absoluto cinismo, afirmando que “estamos enviando o melhor time a disposição pra vencer o jogo”.)
Mas, por outro lado, o mesmo Grêmio empatou com o Palmeiras no Parque Antártica e com o Cruzeiro no Mineirão. Logo, o seu time titular poderia, mesmo desmotivado por não estar disputando mais nada no campeonato, complicar a vida do Flamengo.
E também, ao complicar a coisa, poderia igualmente valorizar o campeonato do Flamengo. Facilitando-o, desonra-o aos olhos de todos. E o Flamengo e a sua torcida não tem nada a ver com isso, é uma coisa que está se dando em função do provincianismo gaúcho e suas peculiaridades antagônicas.
E o Inter? Buenas, o Inter não se ajudou no campeonato, preferiu ou teve de fazer $$$. Vendeu jogadores, dentre eles o centroavante Nilmar, da seleção. Foi primeiro colocado no 1 turno e fez um a péssima campanha no segundo. Chegou a estar 11 pontos acima do Flamengo, depois caiu. Se recuperou na reta final, ajudado, também, pelo desemprenho irregular de Palmeiras e São Paulo. Neste domingo, joga com o Santo André, que tem de ganhar para ainda ter chances, dependendo de resultados paralelos, de não ser rebaixado pra segunda divisão. Por isso o Inter, junto com Palmeiras e SP, tem 62 pontos, dois a menos que o Flamengo, e depende um tropeço do mesmo pra ser campeão.
Fora ajudar o Flamengo e entregar o jogo pra prejudicar o Inter, o Grêmio vai tirar as chances de Palmeiras e de São Paulo, que nada tem a ver com o provincianismo futebolístico gaúcho, serem campeões brasileiros. De antemão nem podem ter esperanças, pois o Grêmio vai chafurdar na lama, desonrar sua história e entregar indiretamente o jogo.
Ah, e também não esqueçamos que os rivais cariocas do Flamengo botafoguenses, vascaínos e torcedores do Fluminense, vão perder o respeito e admiração pelo Grêmio. Até os caras do Flamengo, creio, vão ficar putos por terem de ouvir destes que só foram campeões porque o Grêmio entregou o jogo. O Grêmio vai se fechar num mundinho provinciano (esquecendo da sua grandeza) e desagradar a todos.

Bônus e ônus
Logo, o Grêmio vai, com sua atitude anti-desportiva e antiética, ajudar a colocar gasolina no ódio colorado (que oportunidade histórica desperdiçada pra se construir um rivalidade digna!!!), vai perder totalmente o respeito das torcidas de Palmeiras e São Paulo e arranhar e apequenar sua imagem no Brasil e no mundo, virando exemplo de time que entrega jogo.
Uma lástima. Mas uma escolha também, que terá de gozar seu bônus (um prazer efêmero, que dura apenas essa semana e até o final do jogo, que, aliás, pode terminar amargo – as vezes, a gente se surpreende com o resultado de nossos desejos...), mas que terá de pagar o seu ônus.
E digo mais: o feitiço vai virar contra o feiticeiro!
Ao invés de prejudicar o Inter, o Grêmio vai unir ainda mais a sua torcida ao time em 2010 ao jogar sujo pra impedir o título do Inter, o que vai motivar muito os colorados a apoiar o seu clube a vencer a Libertadores e ir ao Mundial novamente em 2010. Vejam se o quadro social do Inter não aumentará em 2010...
E o pior é que nós, 25% de gremistas que não compactuamos com tal demência coletiva, vamos pagar juntos o preço de vermos o Grêmio ser colocado como chacota e mau exemplo pro Brasil e pro mundo.
Faz parte. Mas, mesmo envergonhado e levando essa vergonha para sempre comigo, não deixarei de ser gremista. E mais: nunca alguém poderá dizer que eu me omiti e que, um dia, me calei ou torci contra o Grêmio.
“Até a pé nós iremos, para o que der e vier, mas o certo é que nós estaremos, com o Grêmio onde o Grêmio estiver”.


Anexo:
Símbolos ridículos da campanha "entrega", feitos por gremistas!!!!:




João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 05/12/2009
Alterado em 05/12/2009
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