João Adolfo Guerreiro

Descobrindo a verdade/ sem medo de viver/ A liberdade de escolha/ é a fé que faz crescer.

Textos

Cunhada não é parente?

Não, cunhada é um problema em potencial sobre qualquer ângulo que você analise o fato. Posso dizer que é preferível ter vários cunhados do que uma cunhada. Cunhado é homem que nem você, é só mandar pro raio que o parta que o cara não te incomoda mais. Mas cunhada não, é mulher, é sensível, chora, pega no pé.
Isso mesmo, pega no pé, pois não existe coisa mais birrenta que mulher. Homem vai pro pau contigo, ou você dá ou apanha. Mulher não, pega no pé. É terrível. Faz da sua vida um inferno de sutilezas incomodativas. Ah bicho, e como mulher sabe ser incomodativa e sutil quando quer! É aquele negócio: ela te enche o saco fazendo de conta que não está enchendo, sacou? Vamos a alguns casos particulares.

Primeiro caso – É aquela cunhada mais nova que a sua mulher, tipo “rapa-do-tacho” do sogro e da sogra. Depois de uns três anos de casado, você começa a olhar com outros olhos aquela fedelha de shortinho andando pela sua casa. Claro, ela já não é mais fedelha, já tem 16 anos! Esse é o caso da cunhada tentação.
- Juuuusssséééééé, posso pegá o teu rádio pra ouvir o CD da Malhação internacional que eu ganhei?
E lá está ela, se esticando para pegar o rádio em cima da estante, enquanto você começa a reparar na mini-saia da guria, que fica mais curta naquela situação. “Não! Não! Sai da minha cabeça tentação!” – você pensa. Mas o problema já está criado.

Segundo caso – É a cunhada mais nova que é namoradeira e tem o péssimo hábito de trazer os namorados a tiracolo sempre que vem na sua casa. Eis a cunhada lotação.
Numa semana é: “Oi João Carlos, deixa eu te apresentar o Tunico”. Noutra semana é: “Oi João Carlos, deixa eu te apresentar o Julinho”. E assim você vai semana após semana conhecendo paulinhos, carlinhos, zezinhos, luisinhos. Você ainda fica por dentro de todas as “tribos” jovens que rolam, de acordo com a turma ou o modismo que a guria esteja experimentando. São cabeludos com camisas pretas demoníacas, carecas de boné pra trás e bermudão, tipos estranhos com “piercing” em lugares nojentos e inusitados, e por aí vai.
Até que um dia ela passa no vestibular de serviço social da UFRGS e aparece com um cara mal encarado na sua casa. Você olha para o cara e tem a impressão que conhece ele.
- Oi João Carlos, deixa eu te apresentar o Dominó. Eu conheci ele num projeto que eu estou fazendo lá na Vila do Arroio das Antas.
Pudera, é o cara que te assaltou no domingo passado! Polícia!

Terceiro caso – E tem aquela cunhada mais velha. Meu amigo, essa é a pior de todas. Além da esperteza natural das mulheres, ela tem somada em si toda a experiência da sua sogra. Aliás, melhor ter cinco cunhados e duas sogras pentelhas do que uma cunhada dessas. É a “cunhada-sogra”.
Veja que tal cunhada tem uma relação de “mãe” com a sua mulher, relação essa alimentada por sua esposa, que “vai muito pela cabeça da irmã”. E nessa você entra em desvantagem, pois está diante de uma relação já “construída” e repleta de históricos emocionais.
- Paulo Sérgio, eu andei falando com o Morgana e acho que a gente tem de repensar esse negócio de comprar um carro novo no final do ano.
- Como assim? O que que a tua irmã tem a ver como nosso carro novo?
- É que ela acha que é mais importante a gente aumentar a casa primeiro, pois se acontecer algum contratempo financeiro a gente já tem o principal. Ela acha que carro não é prioridade.
- E eu me importo com o que aquela mala acha? Êta mulherzinha metida essa!
- Não fala assim da Morgana Paulo Sérgio. Ela só quer ajudar a gente.
- Ajudar? Ela quer é se meter na nossa vida, Jasmim. É uma chata.
- Olha Paulo, eu não quero que você fale assim. Eu devo muito a Morgana. Quando o papai morreu, foi ela que ajudou a mãe a me criar. Até pagou o curso técnico prá mim.
- Chata sim, fica se metendo na nossa vida. Que vá cuidar da casa dela!
A sua mulher começa a chorar e você amolece. Seu instinto lhe diz que você a magoou, e você sabe que mulher magoada fica distante e emburrada. Mas isso você não quer que aconteça no primeiro ano de casamento, quer? Então você se entrega. A cunhada venceu. Você pede desculpa e tudo o mais. No final, a sua mulher ainda lhe pede para ir de carro levar a Morgana no dentista, que o filho dela tem obturação para fazer e o marido teve que viajar a serviço para Pelotas. Assim que você chega na casa da cunhada, ela dispara, sutil:
- Ai Paulo Sérgio, que bom que você veio. Já “estamos” atrasados.



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João Adolfo Guerreiro
Enviado por João Adolfo Guerreiro em 29/04/2006
Alterado em 10/05/2011
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